Entre o riso e o choro, o drama da vida ou a comédia a cores ou a preto e branco. A verdade escondida que nos faz pensar e crescer, meras coincidências que nos dizem tanto ou quase nada, momentos bem passados de preferência partilhados, numa boa companhia e num pacote de pipocas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

THE GATHERING


"No interior da Inglaterra um casal de jovens cai em um buraco. O rapaz morre na hora, mas a jovem viveu cinco dias e faleceu logo após ter sido encontrada. Seria só mais um acidente, mas no buraco haviam esculturas em baixo relevo que pareciam olhar para uma cruz, sendo que nela havia uma imagem de Jesus. O padre Luke Fraser (Simon Russell Beade) pede para Simon Kirkman (Stephan Dillane), um estudioso do assunto, inspecionar o local. Paralelamente Marion (Kerry Fox), sua mulher, atropela uma jovem e, ao levá-la ao hospital, fica sabendo que é Cassie Grant (Christina Ricci). Marion fica surpresa quando o médico lhe informa que Cassie sofreu apenas ferimentos leves, pois parecia um choque violento. Cassie só demonstra estar desorientada, mas isto é considerado perfeitamente normal, pois sua memória pode ter sido um pouco afetada. Como recebeu alta Marion resolve acolhê-la na sua casa, onde Cassie se integra rapidamente e informalmente se torna a babá de Michael (Harry Forrester) e Emma (Jessica Mann). Cassie passa a ter visões de pessoas da cidade sofrendo mortes bem violentas, sendo que ao tentar descobrir o sentido de tudo aquilo se depara com uma terrível verdade."



 Se existe algum crime, algum pecado na curiosidade mórbida, por vezes, que nos leva a querermos presenciar acidentes, assassinatos ou outros tipos de catástrofes, ele não se encontra no simples facto de observarmos, mas no de, ao fazê-lo, e podendo evitá-lo não o fazermos, tornando-nos cumplices e merecedores de sermos castigados por isso. Esta é a moral a extrair deste The Gathering, dirigido em 2003 por Brian Gilbert, que conta ainda com Ioan Gruffudd (Quarteto Fantástico e Rei Artur) no seu elenco. 




É um filme com uma ideia interessante capaz de nos prender ao ecrã, embora por vezes pareça tornar-se um pouco confusa e nem sempre bem explicada. Apenas um pormenor que quase passa despercebido no magnetismo habitual de Christina Ricci, "a navegar" em águas que não lhe são desconhecidas num filme que não sendo de terror não deixa de estar envolto num complexo mistério, bem ao estilo de outros trabalhos desta actriz nem sempre valorizada no meio comercial cinematográfico.


sexta-feira, 15 de março de 2013

ALWAYS - A PERFEIÇÃO DOS AMORES IMPERFEITOS

 "Always ou Apenas Tu é um filme de drama e romance realizado na Coreia do Sul em 2011, por Song Il-gon, com So Ji-sub e Han Hyo-joo como protagonistas de uma triste história de amor entre um ex-lutador de artes marciais mistas e uma rapariga que havia perdido a visão após um acidente enquanto conduzia."



Já não via um filme asiático há algum tempo e a verdade é que à primeira tentativa voltei a ser agradavelmente surpreendido por um filme sul-coreano, com uma história que noutros países, às mãos de outros realizadores provavelmente mais experientes que este Song Il-gon, não passaria de um drama insipiente e lamechas, mas que neste contexto resulta numa amálgama de sentimentos intensa, apaixonante e por vezes arrepiante, o que para mim já não é novidade.



 Apenas Tu é um filme de amor, raramente fácil mas que não consegue deixar de ser previsivel para o espectador, um pormenor mais ou menos relevante mas que perde importância se pensarmos que o filme não se resume ao típico romance complicado mas que no fim acaba bem para o mocinho e para a heroína tantas vezes futeis. Catalogar Always neste género seria demasiado redutivo para um filme de sentimentos, de coragem face aos infortúnios que fazem a vida das pessoas reais, que fala sobre destino, um destino quase sempre ingrato e irónico que tão lentamente nos leva ao cume da montanha como tão depressa nos atira para o abismo.



Um filme a não perder para os amantes do bom cinema no geral e em particular para aqueles que ainda resistem, socorrendo-se de preconceitos infundados ao que é produzido num mercado ainda tão desconhecido para nós. Como nos mostra o filme, mais do que a beleza estética, exterior, tantas vezes ofuscante como falsa, a verdadeira beleza é aquela dos sentimentos, aquela que nos faz enxergar com os olhos do coração.





terça-feira, 12 de março de 2013

MANTENDO AS APARÊNCIAS


Saving Face é um filme que aborda de forma ligeira vários tabus que ainda sobrevivem nos nossos dias, apesar de uma maior abertura de mentalidades. É a história de uma filha que tem de acolher a mãe em sua casa, devido a esta, viúva, ficar grávida, sendo logo colocada de lado pela restante família. É ainda a história da filha e dos seus sentimentos pela filha do chefe. É, fundamentalmente, uma viagem ao interior de cada um de nós, de descoberta e do assumir quem somos e o que queremos, sem medo do que os outros possam pensar. É, por fim, o sabermos até que ponto estamos dispostos a ir pela nossa própria felicidade.

MUSICA & LETRA


"Música e Letra" é uma comédia ligeira e bem disposta, com uma dupla de actores que costumam sair-se sempre bem neste tipo de filmes. Hugh Grant, que, confesso, ser um dos meus actores preferidos neste género e uma engraçada e esforçada Drew Barrymore, na minha opinião, ainda à procura de ver o seu talento levado a sério e confirmar-se finalmente como uma das principais figuras de Hollywood neste tipo de filmes.

O enredo do filme foca-nos sobre a existência quase anónima de uma ex-vedeta de um popular grupo pop dos anos 80, que perdeu protagonismo quando o seu colega de grupo partiu para uma carreira a solo. É difícil, pelo tipo de música e pelas coreografias tão populares em alguns intérpretes desses anos dourados da música intitulada comercial não associar-mos a história à dissolução dos popularíssimos Wham, que viviam agarrados à imagem forte do carísmático George Michael e do anonimato quase imediato do outro elemento do grupo, Andrew Ridgeley, de quem muito pouco se sabe a partir dessa época.


A pacata vida do personagem interpretado por Hugh Grant é virada de pernas para o ar quando uma popular popstar do momento - a típica Shakira ou Britney Spears - o convida para escrever uma música a ser cantada pelos dois. Sem escrever nada há muitos anos, a sua única esperança de obter um bom contrato e resgatar alguma da sua fama está na capacidade de fazer versos de uma Drew Barrymore à procura de uma identidade própria e que lhe entra em casa para cuidar das plantas. Entre os actores secundários, oportunidade para rever Kristen Johnson, popularizada pela série "3º calhau a contar do sol".

EÇA COM SOTAQUE

Versão brasileira de um dos mais conhecidos contos de Eça de Queiroz,  "O Primo Basílio", de Daniel Filho, é mais um de muitos exemplos do bom cinema que se faz no Brasil.




O elenco traz-nos alguns dos melhores nomes dos últimos anos da televisão brasileira, nomeadamente das telenovelas, desde Debora Falabella (que temos oportunidade de ver actualmente em Avenida Brasil), Fábio Assunção, Reynaldo Gianecchini à brilhante Glória Pires, uma das mais completas actrizes do lado de lá do atlântico.



Aliás, é mesmo Glória Pires - quase irreconhecível na sua caracterização - que consegue os melhores momentos deste filme, no papel de Juliana, a empregada que, descobrindo o romance de Luisa com Basílio começa a fazer chantagem com a patroa, numa divertida troca de papéis.


Sexo, chantagem, drama e tragédia são os principaiss ingredientes deste filme que peca pelo seu tom demasiadamente moralista, sem, no entanto, chegar a dar profundidade a nenhum dos caminhos a que se propõe seguir, como o racismo, quando Juliana diz que não quer ficar no mesmo quarto que a outra empregada porque "preto cheira mal".


As cenas mais ousadas entre Luísa e Basílio acabam no entanto por limitar um pouco o que poderia ser um filme para toda a família, considerando-as - não querendo também ser moralista - exageradas no seu contexto. É a velha fórmula de cativar audiências pelo apelo da carne, tantas vezes usada nos média. Dos actores esperava um pouco mais, mas talvez eu tenha elevado demasiado as minhas expectativas, face ao enorme talento, meios e ao muito que já vi de excelente feito no Brasil. Salva-se como já referi, Glória Pires, que chega a ser agradavelmente insuportável, o que num vilão é sempre positivo. Fora isso, o filme chega a ser agradável e até interessante, para quem não espera mais do que uma hora e pouco de bom entretenimento.

REALIDADE E FICÇÃO


QUANDO VENCER SIGNIFICA MORRER

Certamente que muitos daqueles que gostam de cinema já viram "Fuga Para A Vitória" (1982), um dos melhores filmes de futebol que se fizeram até agora. Neste filme de John Huston, Sylvester Stallone e Michael Caine integram uma equipa de prisioneiros num campo de concentração alemão, onde, com a ajuda de reforços de peso como Pelé, Bobby Moore ou Osvaldo Ardiles, emtre outros, conseguem derrotar o orgulho uma forte equipa alemã. O que poucos saberão é que esse filme é baseado numa história verídica que teve um final muito menos feliz, mas que demonstra fielmente que existem valores que transcendem a própria vida e pelos quais valerá a pena morrer. Foi o que aconteceu com um grupo de jogadores russos, há mais de 60 anos atrás.


"Tudo começou em 19 de setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazista, e os homens de Hitler aplicaram um regime de castigo impiedoso e arrasaram com tudo. A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazistas, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver nas casas, assim todos vagavam pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido goleiro do Dinamo.

Josef Kordik, um padeiro alemão a quem os nazistas não perseguiam, precisamente por sua origem, era torcedor fanático do Dinamo. Num dia caminhava pela rua quando, surpreso, olhou um mendigo e de imediato se deu conta de que era seu ídolo: o gigante Trusevich.
Ainda que fosse ilegal, mediante artimanhas, o comerciante alemão enganou aos nazistas e contratou o goleiro para que trabalhasse em sua padaria. Sua ânsia por ajudá-lo foi valorizado pelo goleiro, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um teto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade com a estrela de sua equipe.
Na convivência, as conversas sempre giravam em torno do futebol e do Dinamo, até que o padeiro teve uma idéia genial: encomendou a Trusevich que em lugar de trabalhar como ele, amassando pães, se dedicasse a buscar o resto de seus colegas. Não só continuaria lhe pagando, senão que juntos podiam salvar os outros jogadores.

O arqueiro percorreu o que restara da cidade devastada dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, a seus amigos do Dinamo. Kordik deu trabalho a todos, se esforçando para que ninguém descobrisse a manobra. Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e também os resgatou. Em poucas semanas, a padaria escondia entre seus empregados uma equipe completa.
Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o seguinte passo, e decidiram, alentados por seu protetor, voltar a jogar. Era, além de escapar dos nazistas, a única que bem sabiam fazer. Muitos tinham perdido suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última sombra mantida de suas vidas anteriores.
Como o Dinamo estava enclausurado e proibido, deram um novo nome para aquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através de contatos alemães começou a desafiar a equipes de soldados inimigos e seleções formadas no III Reich.
Em sete de junho de 1942, jogaram sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. Seu seguinte rival foi a equipe de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois meteram 11 gols numa equipa romena. A coisa ficou séria quando em 17 de julho enfrentaram uma equipe do exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazistas começaram a ficar chateados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e buscaram uma equipe melhor para ganhar deles. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou de 3 a 2 na revanche.
Em seis de agosto, convencidos de sua superioridade, os alemães prepararam uma equipe com membros da Luftwaffe, o Flakelf, que era uma grande time, utilizado como instrumento de propaganda de Hitler. Os nazistas tinham resolvido buscar o melhor rival possível para acabar com o FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo refém dos nazistas. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de esportividade dos alemães, o Start venceu por 5 a 1.
Depois dessa escandalosa queda do time de Hitler, os alemães descobriram a manobra do padeiro. Assim, de Berlim chegou uma ordem de acabar com todos eles, inclusive com o padeiro, mas os hierarcas nazistas locais não se contentaram com isso. Não queriam que a última imagem dos russos fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam nada mais que perpetuar a derrota alemã.

A superioridade da raça ariana, em particular no esporte, era uma obsessão para Hitler e os altos comandos. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam derrotar o time em um jogo.
Com um clima tremendo de pressão e ameaças por todas as partes, anunciou-se a revanche para 9 de agosto, no repleto estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo:

- "Vou ser o juiz do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazista.


Já no campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: - "Heil Hitler!", gritaram - "Fizculthura!", uma expressão soviética que proclamava a cultura física.
Os alemães (camisa branca e calção negro) marcaram o primeiro gol, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo ganhando por 2 a 1.

Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:
- "Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial da SS. Os jogadores ficaram com muito medo e até propuseram-se a não voltar para o segundo tempo. Mas pensaram em suas famílias, nos crimes que foram cometidos, na gente sofrida que nas arquibancadas gritava desesperadamente por eles e decidiram, sim, jogar.

Deram um verdadeiro baile nos nazistas. E no final da partida, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o arqueiro alemão. Deu lhe um drible deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar em frente a trave, quando todos esperavam o gol, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de deboche, de superioridade total. O estádio veio abaixo.

Como toda Kiev poderia a vir falar da façanha, os nazistas deixaram que saíssem do campo como se nada tivesse ocorrido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois dessa última partida, a Gestapo visitou a padaria.

O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Kordik, o padeiro. Os demais presos foram enviados para os campos de concentração de Siretz. Ali mataram brutalmente a Kuzmenko, Klimenko e o arqueiro Trusevich, que morreu vestido com a camiseta do FC Start. Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em novembro de 1943. O resto da equipe foi torturada até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, custodiado em forma permanente, conserva-se atualmente um monumento que saúda e recorda àqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.

domingo, 10 de março de 2013

WINDSTRUCK


 Windstruck, de 2004 é um dos poucos filmes que tiveram entrada - embora quase discreta - no mercado português, felizmente para os mais atentos. Originário da Coreia do Sul, este filme é realizado por Kwak Jae-Young que, pelas críticas, é daqueles realizadores com um toque especial de Midas, capazes de fazer um sucesso de cada filme realizado, cujo expoente será My Sassy Girl, aguardado por mim com imensa expectativa.

 

 Além destes dois filmes, também é seu, Il Mare, que os americanos aproveitariam para fazer A Casa da Lagoa, com Sandra Bullock e Keanu Reeves. Windstruck conta a história do envolvimento entre uma mulher polícia (interpretado por uma magnetizante Jun-Ji-Hyun) e por um professor (Jan-Hyuk). A história, ao contrário dos romances ocidentais, é imprevisivel, sem os habituais clichés do "viveram felizes para sempre". A mescla entre a comédia, o drama, as artes marciais ou mesmo a fantasia, resulta numa mistura explosiva, tornando Windstruck num filme sensivel e arrebatador, capaz de trazer as emoções à flor da pele. Puro e selvagem, inocente e por vezes a roçar o ingénuo, Kwak consegue arrancar-nos uma gargalhada com a mesma facilidade com que nos rouba uma lágrima. Pelo menos comigo conseguiu-o.